6 de fev de 2011

MISTÉRIO

Há vozes dentro da noite que clamam por mim,
Há vozes nas fontes que gritam meu nome.
Minha alma distende seus ouvidos
E minha memória desce aos abismos escuros
Procurando quem chama.
Há vozes que correm nos ventos clamando por
                                                   [ mim.
Há vozes debaixo das pedras que gemem meu
                                                   [ nome
E eu olho para as árvores tranqüilas
E para as montanhas impassíveis
Procurando quem chama.
Há vozes na boca das rosas cantando meu nome
E as ondas batem nas praias
Deixando exaustas um grito por mim
E meus olhos caem na lembrança do paraíso
Para saber quem chama.
Há vozes nos corpos sem vida,
Há vozes no meu caminhar,
Há vozes no sono de meus filhos
E meu pensamento como um relâmpago risca
O limite da minha existência
Na ânsia de saber quem grita.

                          De Cantos da Angústia (1948)


REPOUSO

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela
                                     [ canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem
                                     [ os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas
                                     [ entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo
                                     [ agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito
                                     [ amada.

                          De As Fronteiras da Quarta Dimensão (1951)